Recentemente, o consumo de águas envasadas (água mineral natural, água natural e água adicionada de sais) vem crescendo consideravelmente pelas famílias brasileiras devido à percepção de que é um produto intrinsecamente seguro e puro, à desconfiança na qualidade da água de distribuição da rede pública, à busca por um estilo de vida mais saudável por substituir bebidas açucaradas e à praticidade do consumo de galões de 20L para residências e escritórios.
Em contrapartida, a vulnerabilidade microbiológica das fontes e do processo de envase causa um aumento da presença de microrganismos em águas minerais envasadas, em destaque para as bactérias Pseudomonas aeruginosa. O número de empresas envasadoras vem crescendo na mesma proporção para atender o mercado do consumo de água mineral. Ao mesmo tempo, as fontes de água são degradadas para atingir as demandas do mercado, os riscos à saúde pública aumentam e as fiscalizações, sobre essa bactéria oportunista presente na água mineral, redobram.
O que é Pseudomonas aeruginosa?
O microrganismo Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria gram-negativa, que pode estar por toda a parte, é considerada um patógeno oportunista. O risco de causar infecções graves na população geral através da ingestão por via oral desse patógeno é baixo, uma vez que a barreira gástrica e o sistema imunológico saudável costumam neutralizar pequenas cargas bacterianas. Mas, a presença de P. aeruginosa pode causar distúrbios gastrointestinais leves. Por outro lado, o perigo real é as pessoas pertencentes aos grupos de risco: idosos, recém-nascidos, transplantados, pacientes oncológicos ou com doenças crônicas. A ingestão de P. aeruginosa por pessoas imunocomprometidas pode evoluir para infecções sistêmicas severas, como bacteremia e sepse, e infecções oportunistas em tecidos moles se a água for usada para higienização. Além disso, outro fator de complicação para população em geral é resistência natural e adquirida a múltiplos antibióticos, dificultando o tratamento clínico caso uma infecção se instale.
Envasadoras e os Recursos Hídricos Brasileiros
No Brasil, o número de empresas envasadoras vem aumentando pelo fato do processo de envase de água mineral ser menos complexo quando comparado aos outros processos de processamento de alimentos e produção e envase de bebidas. Outro motivo é a alta margem de lucro localizada, como a água é um recurso regionalizado, pequenas e médias empresas envasadoras conseguem explorar fontes de água locais e competir fortemente eliminando custos logísticos de transporte interestadual. Outro fator que contribui é a abundância de recursos hídricos no Brasil, pois possuímos grandes reservas subterrâneas; tais como: o Aquífero Guarani, o Aquífero Serra Geral, entre outros; facilitando a exploração de novas fontes de águas minerais.
O avanço das cidades sobre as áreas de recarga dos aquíferos aumenta o risco de infiltração de contaminantes, como: esgotos domésticos, industriais e o lixo. Além disso, o uso intensivo de fertilizantes e defensivos agrícolas próximos causa a lixiviação de nutrientes próximos às fontes de águas, o que facilita a propagação dessas bactérias oportunistas. Outro fator que contribui são os longos períodos de seca severa que reduzem o volume dos aquíferos, concentrando poluentes, enquanto que as chuvas torrenciais podem causar enxurradas que infiltram rapidamente no solo sem a devida filtragem natural, gerando contaminação microbiológica direta. Falhas estruturais nos poços de extração devido ao desgaste ou a falta de manutenção na vedação sanitária das tubulações e cabeçotes, permitindo a entrada de águas superficiais poluídas.
O cenário de fiscalização e monitoramento tem aumentado no Brasil devido aos casos de grande repercussão na mídia de lotes interditados por contaminação microbiológica que forçam as autoridades de Vigilância Sanitária a intensificar as fiscalizações e coletas de rotina. Além disso, o fortalecimento de programas estaduais e nacionais de monitoramento estão mais estruturados e mais frequentes. Outro fator que contribui, é a pressão do consumidor e a facilidade de canais digitais de denúncias diretamente aos órgãos reguladores.
Normas da ANVISA e Padrões Microbiológicos
A RDC nº 724/202 e a IN nº 161/2022 da ANVISA estabelecem os padrões microbiológicos gerais de monitoramento para águas envasadas e as regras gerais para tomada de decisão e interpretação de resultados. A presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em águas envasadas possui tolerância zero. Em cinco subamostras analisadas, nenhuma delas pode apresentar uma única unidade formadora de colônia (UFC) dessa bactéria. Por esse motivo, a higienização rigorosa do maquinário de envase e das embalagens devem ser realizadas para evitar a formação de biofilmes altamente resistentes desse patógeno oportunista. Além disso, análises microbiológicas laboratoriais periódicas de detecção e quantificação de Pseudomonas aeruginosa por técnica de membrana filtrante devem ser realizadas tanto na fonte (água bruta) quanto no produto final acabado (garrafas e galões).
Artigo por Karen Fernanda de Oliveira
Referências
- Resolução ANM n° 193/2024; Código de Águas Minerais - Decreto-Lei nº 7.841/1945.
- DOQ-CGCRE-044 Rev. 04 - INMETRO; diretrizes técnicas da Rede LAMIN/SGB.
- RDC nº 717, de 1º de julho de 2022. Dispõe sobre os requisitos sanitários para a exploração de água mineral natural e água natural.
- RDC Nº 724, de 1º de julho de 2022. Dispõe sobre os padrões microbiológicos dos alimentos e sua aplicação.
- Instrução Normativa nº 161, de 1º de julho de 2022. Estabelece os padrões microbiológicos para alimentos.
- Fernandes, A. C. G., Silva, B. F., Oliveira, C. R., et al. Bacteriological study through the determination of Pseudonomas aeruginosa for drinking water. Research, Society and Development, v. 12, n. 4., 2023.
- Souza, A. P., et al. Sobrevivência e desenvolvimento de Pseudomonas aeruginosa em água mineral experimentalmente contaminada. Rev Inst Adolfo Lutz. São Paulo, 2019.
- Pedrosa, A. P., et al. Pesquisa de fatores de virulência em Pseudomonas aeruginosa isoladas de águas minerais naturais. Rev. Ambient. Água, v. 9 n. 2, 2014.